
Estava de branco. Sorria e era contemplada por todos os que ali estavam. De pé ao meu encontro estavam as pessoas mais importantes para mim naquele momento. Quem me olhava não fazia ideia do que aquele sorriso estampado em meu rosto significava e o turbilhão de sensações que faziam morada em meu peito no curto espaço entre a porta e o altar daquela igreja.
O branco da minha roupa não representava para os outros o que representava para mim. Eu estava branca e plena. Não levava comigo nenhuma bagagem. Aquele branco tinha sim cheiro de novo. É preciso coragem para largar sua história e decidir formar outra. É claro que o que aprendi durante o período de minha bagagem seria essencial para começar do zero de novo, mas de certa maneira eu tinha começado de novo. Cada passo que me levava perto desse sonho fazia com que o coração pulsasse devagar. Aquele sorriso trazia claro certa insegurança, afinal ninguém embarca num navio tão inteiro como eu estava. A mercê e entregue. Parte de mim sussurrava para que eu desse um passo e outro e outro e eu seguia. Era meu primeiro dia. Estava aprendendo esse tal amor que tanto ouvi por ai. Minha mãe sempre me disse que descobriria o quão grande era meu amor por alguém quando conseguíssemos comer um kl de sal juntos. Convivência. Era isso. Talvez esse fosse meu sonho. Além de festas para celebrar conseguir descobrir o amor em meio a momentos difíceis, em meio há horas que ele não deveria se encontrar. Eu não queria amar aquele homem só naquele momento lindo. Seria tão clichê dar votos de uma vida eterna ao lado de alguém, preso a alegria, doença, tristeza, e estar limitado ao “até que a morte nos separe”. Só queria que depois dos anos que nos cegam ainda pudesse sentar em um sofá qualquer e partilhar um pouco da nossa felicidade eterna. Partilhar com você a parte de mim que ficou para trás quando decidi juntar sua outra parte para formar nós. Só queria que mesmo presos a convenções de casamentos errados e de prejuízos do mundo a fora pudéssemos rir das nossas dificuldades, juntar forças e nos reinventar passando por cima da rotina que nos impede de sorrir. Queria ironizar suas namoradas antigas e dizer que a sorte é toda sua por ter encontrado alguém como eu. Entre seus sorrisos e logo em seguida quando me disser o quanto o meu ego não cansa de crescer suspiraria e diria que além de sorte encontrá-lo foi presente de alguém lá em cima que com certeza iria muito com a minha cara. E só. Estava quase chegando. Não tem palavras para descrever aquele sorriso, não tem palavras para descrever o que o sorriso recíproco dele naquele momento significava para mim. A vida não estava no doce do bolo e no champanhe que brindaríamos juntos naquela noite. Nossa vida iria começar depois, bem depois. Aquele era só um trailer. O mais lindo que já havia visto, mas era apenas isso.
Do alto, talvez pouco notado por conta daquele baita sorriso a minha frente, que tinha o dom de ofuscar qualquer luz por brilhar mais, eu a olhava. Não pude deixar de reparar na sua beleza naquela noite, sobre-saiu qualquer outro dia.
Enfim, consegui. Ela estaria ao meu lado nas próximas horas felizes da minha vida. Eu acordaria cansado para trabalhar, beijaria seu rosto pálido pela manhã, a veria despida de cosméticos de beleza e amaria ainda assim. Nossas brigas durariam as horas mais delirantes de minha vida a partir dali, porque me faria mal não conseguir soltar uma piada para ver aquele sorriso lindo de novo. Com aquela mulher conseguia me ver de baixo da ponte. Lutando com mendigos por um lugar só nosso. De baixo de um mar. Aliás, viveríamos num mar. Eu iria pular nele quando pronunciasse sim. Ela também pularia. Daríamos à mão. Olharíamos a nosso redor. Construiríamos pontes até nossa felicidade fazendo valer mesmo quando as coisas não pareçam tão certas para nós. Não seremos escravos da eternidade do amor, não seremos escravos de nós mesmos. Prometemos um ao outro que o amor durará até um ano. Contrato. E quando o ano passasse e eu não quisesse me despedir pediria para ficar. E ela não conseguirá me ver ir. Quando não conseguirmos nos deixar então nos amamos. Prometi também que a vida não giraria em torno de nós, ao contrário das utopias de novela, estaremos juntos sempre, mas isso não precisa ter a ver com estado físico. Nossos amigos, nossos passeios, nossa família (que agora será a mesma) precisa apreciar como nos tornamos melhor sendo um do outro, sem invasões entre espaços pessoais, nos tornamos mais juntos, sendo uma parte do outro e cada um sendo si próprio. Nossas memórias seriam as mesmas, só de ângulos diferentes. O que me veio em mente quando te vi entrar amor, foram suas mãos sujas de tinta no primeiro dia. Foi seu olhar de pintora de primeira viagem esperando que eu fosse Lord vintage e a oferecesse um lenço para tirar parte da tinha de suas mãos. E, aliás, que mãos lindas. Brancas e sujas cheia de cores quentes. Eu me apaixonei naquele momento. Me apaixonei pela mulher das mãos sujas de tinha, e te amo hoje, pelo que você se tornou para mim à partir daquele dia. E pelo que será para mim a partir de hoje. Minha mulher. Minha por querer ser minha. Sem possessão. Sem ditaduras. As regras a gente inventa no meio do caminho. Não que a gente vá viver a risca, mas é sempre bom ter um livro de instruções não é? Se nos der na telha jogamos fora e inventamos outro, certo?
O que eu queria naquele momento era o depois. Porque casamentos são rituais de passagem, mas ao contrario do que a mídia me mostrou durante os anos que passei foi que o amor de verdade vai além do véu e grinalda. Eu e minha pintora favorita não seriamos felizes para sempre e ida que vez ou outra estivéssemos infelizes, a gente dá um jeito de não se deixar ainda assim. O que eu prometo é enquanto esse tempo indeterminado ao seu lado durar farei valer a pena nossos segundos de vida juntos. Nosso tempo junto a nós, junto ao mundo. Nosso espaço entre você com você mesma, eu, e nós. Nesse mar de incertezas a minha maior certeza é o amor que quero reinventar com você todos os dias.
(Ana Paula Medeiros)
Nenhum comentário:
Postar um comentário