Assisti ao filme Flor do deserto, da diretora Sherry
Hormann (2009), uma autobiografia da modelo somali Waris Dirie (Lya Kabece),
circuncidada aos cinco anos e vendida para um casamento arranjado aos 13. O filme
é um verdadeiro banho de conscientização sobre como algumas culturas podem ser
agressivas e desrespeitar os direitos humanos em nome de uma crença ou costume.
Drama e realidade tomam conta de uma
menina que aprendeu a entender como suas verdades precisavam ser trocadas de
lugar, a fim de combater as dores alheias Waris Dirie conseguiu transformar sua
dor em arte e foi reconhecida pela ONU como embaixadora oficial da luta pela
erradicação da mutilação genital feminina, após sua primeira declaração em público
sobre a pratica.
Flores no deserto. Mulheres sem empoderamento.
Nós resistimos aos anos e eles nos engoliram como verdadeiras pedras,
resistimos à chuva sem desabrochar, nós nos mantemos presas a convicções e
algumas vezes até acreditamos que elas sejam realmente o melhor para nós. Somos
destinadas e não donas do nosso destino, somos culpadas por nossas vestes e
nosso respeito é condicionado a elas.
Nossos dons são
limitados e nosso corpo nasceu unicamente para reproduzir. Nosso prazer não
importa, nossos ideais são estereótipos e nosso direito é o silêncio.
Assim como as flores
do deserto são poéticas por sua resiliência historicamente comprovada, não
haveria melhor definição para uma mulher que essa. Esse paradoxo de que a
cultura deve ser preservada mesmo que algumas delas invadam nossos direitos nos
faz refletir sobre como na maioria das vezes nós mulheres pagamos acentuadamente
o preço de ser cultural. Não só no continente africano, existem vários países,
como: Nepal, Arábia Saudita, Paquistão, Afeganistão etc., que sob justificativa
de costumes invadem e corrompem nossas condições humanas dos direitos
femininos.
Liya Kebece
conseguiu resistir as tempestades de um deserto que infelizmente ainda é nossa
realidade e desabrochou como flor que é. Gostaria que os desertos de nossas
mentes se abrissem para o que realmente deve ser preservado como cultura e o
que deve ser repensado como costume. Às flores que ainda não desabrocharam, meu
desejo é que um dilúvio de consciência as invada para que possam florir no
deserto porque foi para isso que nasceram.
(Medeiros, Ana)










