sábado, 3 de outubro de 2015

DESERTO DAS MENTES

 Assisti ao filme Flor do deserto, da diretora Sherry Hormann (2009), uma autobiografia da modelo somali Waris Dirie (Lya Kabece), circuncidada aos cinco anos e vendida para um casamento arranjado aos 13. O filme é um verdadeiro banho de conscientização sobre como algumas culturas podem ser agressivas e desrespeitar os direitos humanos em nome de uma crença ou costume.
Drama e realidade tomam conta de uma menina que aprendeu a entender como suas verdades precisavam ser trocadas de lugar, a fim de combater as dores alheias Waris Dirie conseguiu transformar sua dor em arte e foi reconhecida pela ONU como embaixadora oficial da luta pela erradicação da mutilação genital feminina, após sua primeira declaração em público sobre a pratica.
Flores no deserto. Mulheres sem empoderamento. Nós resistimos aos anos e eles nos engoliram como verdadeiras pedras, resistimos à chuva sem desabrochar, nós nos mantemos presas a convicções e algumas vezes até acreditamos que elas sejam realmente o melhor para nós. Somos destinadas e não donas do nosso destino, somos culpadas por nossas vestes e nosso respeito é condicionado a elas.
Nossos dons são limitados e nosso corpo nasceu unicamente para reproduzir. Nosso prazer não importa, nossos ideais são estereótipos e nosso direito é o silêncio.
Assim como as flores do deserto são poéticas por sua resiliência historicamente comprovada, não haveria melhor definição para uma mulher que essa. Esse paradoxo de que a cultura deve ser preservada mesmo que algumas delas invadam nossos direitos nos faz refletir sobre como na maioria das vezes nós mulheres pagamos acentuadamente o preço de ser cultural. Não só no continente africano, existem vários países, como: Nepal, Arábia Saudita, Paquistão, Afeganistão etc., que sob justificativa de costumes invadem e corrompem nossas condições humanas dos direitos femininos.

Liya Kebece conseguiu resistir as tempestades de um deserto que infelizmente ainda é nossa realidade e desabrochou como flor que é. Gostaria que os desertos de nossas mentes se abrissem para o que realmente deve ser preservado como cultura e o que deve ser repensado como costume. Às flores que ainda não desabrocharam, meu desejo é que um dilúvio de consciência as invada para que possam florir no deserto porque foi para isso que nasceram.

(Medeiros, Ana)

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