Não faz muito tempo, Paulo Maluf estava no horário eleitoral da tevê contando tudo o que fez por São Paulo e dizendo que adora trabalhar, é alucinado por trabalhar, que ele passa o final de semana inteirinho rezando pra chegar segunda-feira. Pudera, não deve ser fácil fazer aplicações financeiras fora do país no domingo. O que me espanta é a cara-de-pau. Eu vejo essa gente constantemente se explicando em rede nacional e penso: será que não bate uma vergonhazinha? Ir para a frente de uma câmera declarar-se o homem mais íntegro do planeta enquanto explodem acusações de atos ilícitos pra tudo que é lado. Será que à noite, antes de dormir (no hotel Plaza Athénée, em Paris), o cara não pensa: caramba, quando é que eu perdi o senso do ridículo?
Tem uma outra situação que acho o mico do século: é quando uma mulher sai nua numa revista e depois faz sessão de autógrafos. Posar nua, tudo bem. Umas fazem por
vaidade, outras por necessidade e ninguém tem nada com isso. Mas autografar? Numa livraria??? Putz, se até escritor fica constrangido de ver aquela fila enorme de pessoas esperando por uma assinatura no livro, o que dizer de uma mulher que vai autografar a própria bunda. "Oi, Maryeva, admiro muito seu trabalho, você pode autografar pra mim, Edmilson, aqui bem no meio do pôster central?" Bom humor é tudo nesta vida, mas será que essa mulherada não sente vontade de sumir pelo ralo? Quando uma apresentadora de tevê vai pra capa de uma revista dizer que finalmente encontrou o amor da sua vida, será que não fica meio avexada quando, três semanas depois, é capa da mesma revista e declara-se novamente solteira e disposta a encontrar o homem dos seus sonhos? Ok, é comum a gente se enganar, se iludir quanto à intensidade de um amor, mas todos os meses? Eu morro de vergonha quando um texto meu é publicado com erro, ou quando esqueço o nome de uma pessoa com quem estou conversando, ou se o moço que veio arrumar o chuveiro descobre minha calcinha pendurada no box. Enquanto isso, mulheres ficam de quatro para qualquer fotógrafo e homens declaram-se honestos, mesmo com todas as provas em contrário, e ninguém fica ao menos vermelho, seguem todos com suas dignidades intactas, o faturamento justificando a cara dura que Deus lhes deu.
Mico? Pago eu, que ainda me assombro.
[MEDEIROS, Martha. Montanha Russa. Porto Alegre: L&PM, 2009 p. 208-209]

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