Há alguns anos encontrei uma frase em uma comunidade no orkut (sim, faz certo tempo já que agora o orkut pode ser considerado vintage) que dizia: "Distraídos ou muito concentrados?". Obviamente não entendi com a complexidade que merecia o subentendido da oração até por que isso é tão paradoxal que fica um tanto confuso de se compreender, mas hoje me reconheço uma distraída muito concentrada.
Troco precisamente números, tenho pavor de sequencias, memória curta péssima, a longo prazo incrivelmente infalível. Distrair-se é estar atento a uma complexidade de pensamentos. O mundo da lua é para poucos. Distrair-se é se concentrar em detalhes, cheiros, boca, sorriso, marcas, bagagens.
— Bom dia Ana Paula, você pode por gentileza reimprimir os relatórios? Eles estão incompletos!
— Sim, claro! — Ela tem olhos fundos por que não dormiu, que belo sorriso, que pinta bonita, voz suave demais para quem não dormiu, que raro não descontar o mal humor de uma noite perdida e o pavor de olhos de panda em mim. — te entrego até o fim do expediente e...tenha um ótimo dia.
— Você também!
— O...o...Olá Carlos, desculpe, acho que quase te derrubei — Lindos olhos castanhos, barba mal feita em segunda feira no escritório? Que ele gosta do Camelo eu sei, agora parecer-se com ele, do tipo tiete é estranho de mais para um quarentão. Olha suas marcas de espinha no canto do queixo: ansiedade na certa! —
— Ah, olá Ana, bom te ver, eu estou super atrasado, depois nos falamos.
É louco, é meio esquisito, mas é belo e posso dizer que durante os anos que vivo tropeçando e levando flores demorei a entender o quanto isso é valioso. Em um mundo em que deixamos resguardadas todas as provas de importância a alguém, aos detalhes indispensáveis, em meio as inércias que nos fazem instantâneos demais para o pôr do sol e uma boa conversa que não chega a lugar nenhum e que ainda assim tem o poder libertador de nos ajudar a compreender melhor a vida é lindo encontrar-se com os distraídos, sempre prontos para olhar diferente, mudar ângulo. A lua faz bem, acredite!
(Ana Paula Medeiros)

Nenhum comentário:
Postar um comentário