Eu nunca fiz amigos tentando ser interessante. Todos os amigos mais
íntimos que fiz foi porque me interessei verdadeiramente por eles. Me
interessei pelo que doía, pelo que o fazia gargalhar, pela forma como
banalizava histórias tristes, pelo jeito com que dramatizava fatos
aparentemente banais...Todo mundo quando descobre certa receptividade no
outro abre seu coração com tamanha generosidade, que fica difícil não
fazer o mesmo. Porque a escolha é sempre nossa. A gente se abre, o outro
percebe e se abre simultaneamente_ sempre nessa expectativa do
encontro. E quando flui, tudo nos parece mágico.Mas depois vem o que
fazemos com tanta informação, com aquela confissão, com aquele momento
de entrega. É isso que vai solidificar o que quer que tenha começado. E
quando isso não é um dom, é um exercício.Sempre tenho a impressão de que
meus amigos têm talento para sê-los. Que são pessoas que nasceram pra
essa troca incrível, com esse jeito maravilhoso de encher de sagrado
qualquer encontro. Sempre lembro que se fulano (que para mim vive em
outro patamar espiritual, emocional, intelectual, etc) me es-colheu, é
meu termômetro pra pensar: “vá em frente, você está vibrando na energia
certa”!...Isso me faz acreditar mais em mim e a ter vontade de me
melhorar diariamente porque sei que o quer que eu faça ou fale, nunca
será o suficiente para parar de investir numa relação: o ser humano é
dinâmico, está em constante processo de mutação e carecendo de novas
trocas.Com minhas amizades aprendo, inclusive, a me relacionar
afetivamente com pessoas mais saudáveis quando reflito: “beltrano, (por
quem estou fortemente atraída), seria alguém que eu indicaria para minha
melhor amiga ou uma filha?”Quando a resposta é NÃO! O que me fez pensar
que seria o melhor para mim???É o tipo de amor que não me deixa
estagnar na consciência, mas me leva à ação.Tudo que eu sou eu devo ao
que fui, à minha criação, ao que me doeu longamente, às alegrias que
tive, às pessoas que conviveram comigo,aos valores que me passaram e ao
que transcendi. Tenho tanta consciência da importância do outro na minha
vida que digo que sou viciada em gente: com seus problemas, suas
virtudes, sua simplicidade, ou complexidade, com sua disposição pro amor
ou a sua dificuldade de. Porque eu sempre vou encontrar casa numa
característica, qualidade ou defeito do outro, nem que seja pra rejeitar
naquele momento e me sentir superior ou inferior. Tudo é instrumento
para que eu me trabalhe quando me deixo vir à tona através das projeções
que faço.Não sou uma pessoa fácil, embora quem me veja, ache que sim.
Às vezes me alimento das belezas que as pessoas me dão ou me desprezo
quando me rejeitam.Sou exagerada em tudo:oscilo demais, fico melancólica
demais, alegre demais, agressiva demais, doce demais, carente ao
extremo, independente além da conta. Mas sempre tento estar atenta a
minha responsabilidade, a ter o cuidado de dizer ao outro que o processo
é meu, o problema é meu ...que ele me trouxe à tona e que às vezes no
primeiro impacto isso pode ser assustador. Porque a honestidade sempre
salvou as minhas relações e me permitiu ser amada sendo quem eu estava,
porque somos o que estamos.Depois descobri que a gente se desilude com
amigos sim, mas que ninguém tem tanta força pra me ferir. Só terá se eu
der a ele esse poder. E que quando abraço uma pessoa inteira( porque eu,
sinceramente, não consigo abraçar sem entrega), sei que estou trazendo
pra minha vida uma pessoa com tudo o que ela tem dentro: seu passado e
tudo o mais que a formou além da essência. E acredito tanto na minha
intuição e na minha sensibilidade que confio que sempre haverá a troca_
de um jeito torto, truncado ou fluido_ eu só dependo da minha
criatividade: com ela eu escolho se usarei meus vazios e minhas
decepções pra me lamentar ou como espaços que eu tenho pra crescer ou,
ainda, se saberei aceitar amor e confiar simplesmente.É por isso que
críticas podem até me baquear, mas não me desnorteiam e que elogios me
nutrem, mas não me envaidecem (mais)...Porque nunca fiz amigos tentando
ser interessante...
*
Marla de Queiroz

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