Delicadeza não se ensina, é diferente
do respeito. Delicadeza é temperamento, não se obtém com a idade, não é
uma promoção da sensibilidade, não vem com a educação ou com a imitação
dos pais. Delicadeza é um defeito maravilhoso, uma entrega irreversível.
É uma loucura do bem, uma paranoia sadia. Oferecer mais do que foi
pedido, oferecer-se á toa. Sucumbo diante da delicadeza: a delicadeza é
gentileza refinada.
Não é um hábito, mas uma missão.
A delicadeza é vontade de abraçar com as
palavras, beijar com as palavras, assumir as palavras. Gentileza não é
para qualquer um. Não é boa ação , não é ajudar alguém atravessar a rua,
mas ajudar a atravessar o rosto. Gentileza não pede recompensa, não
conta pontos ao paraíso. Gentileza é ser mais do que estar. É cuidar sem
precisar ser cuidado. É compreender sem necessitar perguntar. É uma
compaixão por aquilo que não presta, mas que tem muito sentido. É passar
livros que se gosta adiante, roupas que se gosta adiante, lembranças
que se gosta adiante. Quem acumula não é gentil, gentil é quem não se
economiza, não deseja colecionar pertencimentos. Delicadeza é uma
felicidade que não acaba nem com a tristeza. É uma gana de viver que não
termina nem com a dor. Delicados são os que guardam uma letra de música
para dizer um dia a sua companhia predileta, é dançar coladinho na sala
com a própria voz, é lavar pratinhos dos vasos na chuva.É se importar
com aquilo que tem necessidade, é criar necessidades do nada. É perder
tempo pensando no outro mais do que em si mesmo, é ceder espaço para o
outro mais do que a si mesmo. É um gesto natural, amar a disposição,
amar o que vem pelo acaso, amar o capricho, fazer as coisas tão acabadas
que o embrulho é o próprio presente. Gentileza é uma paixão
responsável.É quase uma telepatia se não fosse presença completa. A
presença é sempre maior do que a telepatia.
Gentileza nunca é forçada, é espontânea ou não é, não pode ser explicada, não pode ser cobrada.
Ela não ocorre uma vez ao dia – ela é
um estado permanente da audição, é segurar o mundo pelos ouvidos. A
gentileza é a generosidade mais verdadeira, porque não depende de
ninguém, não é um investimento, não traz juros para fé. Irrompe como um
riso, e não tem autoria como a alegria.
É de todos em você.
Fabrício Carpinejar

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