Ah! as declarações:
De um lado alguém decodificando palavras, vomitando sentimentos, momentos capturados, conversas, origens. É indescritível a proporção de sensibilidades, loucuras, e de como tudo é um sinal, uma deixa, tudo parece propício, mesmo sem ser.
Rasgamos em voz alta memórias antigas e detalhes bizarros: "Gosto do seu all star sujo e estiloso" "Gosto de como você sorri quando acorda nos domingos atrasado para não fazer nada" "Gosto de como você sempre me acolhe quando preciso" "Gosto de como pensa sobre a vida e de como a encara" "Gosto de como trata sua família e de como seu profissionalismo te define" "Gosto dos nossos anos juntos que não nos descrevem, nos traduzem".
Do outro lado a distração em pessoa, desatento ao acaso, as horas e aos sinais que não existem. Não há magnitude nenhuma em seu all star sujo e na maneira como sorri aos domingos pela manhã, não existe motivos precisos para conversas boas e um ombro raro quando alguém/ela precise. Até ontem se sentia um belo fracassado, hoje ela te fez forte sobe sua perspectiva. As brigas com o irmão foram esquecidas, e ser o melhor no que faz a faz te admirar. É, realmente ela reinventou o seu melhor. Você estava disponível sem saber, estava na mira sem notar.
Amores nos sensibilizam, nos arrematam por detalhes, nos fazem reinventar alguém e moldar pontos de vista favoráveis. Amores nos fazem poetas, criadores, criativos, propícios, indiscretos, insaciáveis, silenciosamente exagerados.
Mas (...)
Pense em ouvir os repentinos detalhes pontilhados a anos sobre como tudo em você encanta pode parecer desconfortavelmente incrível:
"Incrível como posso ser incrível para alguém" "incrível como tudo isso vai mudar minha rotina para sempre" "Vamos nos afastar?" "Agirei da mesma forma?" "Eu posso mesmo digerir esse amor e me acostumar com a ideia sem machuca-la?" "Sim?" "Não?''
Eu penso nos lados. Penso em como é necessário fazer a declaração para terminar novelas, findar as imagináveis possibilidades e partir para a realidade crua. Mas penso também em como tudo pode ser novo para quem recebe. É incrível ser estimado e é sobre tudo uma responsabilidade. Ter um coração nas mãos, um novo olhar, uma nova perspectiva segundo quem se declarou, moldar possibilidades, dar o fora "com jeitinho", tentar a sorte, arriscar uma amizade, ser amavelmente indeciso, confuso, digerir o sentimento que alguém guardou por tanto tempo em uma fração de segundos e ser limitado apenas por um "sim" ou "não". É difícil mas se declarar é redescobrir a pessoa para ela mesma, é tornar visível o que por tanto tempo não existia, é deixar os sinais, os subentendidos.
Não se apavore se você apavorar, a intensidade de ambos não é a mesma: um esta com o coração na mão e o outro será pego de surpresa.
(falo isso como se não soubesse que amor desconhece razão, e como se sua caixa de lenços já não estivesse guardada para a indecisão dele ou seu fora com um jeitinho, falo isso como se as teorias colassem nesse momento de tensão onde não existe certo ou errado, falo isso como se preceitos a impedissem de clamar seu amor cantando Cazuza e sendo exageradamente apaixonada como todo amor.)
Ana Paula Medeiros

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