terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Um brinde à hipocrisia

"Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. "Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Deixe-me tirar o cisco do seu olho', quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão. 
Mateus 7:1-5

— O que estamos brindando dessa vez?
 Á sua hipocrisia, que também é minha quando a menciono sem a sua presença.

Calei-me por alguns instantes (...)
Após tantos cálices de vinho já apreciados aquele parecia o mais prudente. Prudente por abrir parenteses além do álcool, tão minuciosos sobre nós, humanos. Não, eu não poderia deixar aquela verdade escapar, havia compreendido o sentido daquela frase e vi meu teto de vidro estilhaçado sobre um brinde sutilmente intenso. 
Que diria eu a ele? negaria a hipocrisia que me foi dada ao nascer, negaria as sentenças que já o deleguei em sua ausência? Poderia eu esquecer de todos os pré-conceitos e juízos que havia feito mesmo sem conhecer o contexto daquele livro que julguei pela capa?
Marcos não tirou de si o peso que nos é imposto ao nascer, foi claro e franco sobre nossa natureza. Até por que seria inútil proclamar um moralismo sob ausência de exemplos que devem o acompanhar. O que me espantou não foi sua ousadia em admitir o que já sabia, interpretei além do que ouvi. 
Me vi em um reflexo que se dá quando cada palavra é atirada como pedra, quando ao tentar atingir o teto vizinho com julgamentos descabidos o nosso teto de vidro reflete justamente as pedras que também deveríamos receber. Cada pedra antes de lançada se balanceada em nosso reflexo seria atirada para o alto e não para o lado. 
 Somos todos de vidro, ninguém se enxerga, se pudéssemos realmente remover a trave dos olhos perceberíamos que o teto do vizinho só reflete o que também somos de fato. Percebi que o juízo que medi, foi o que recebi.

(Medeiros, Ana Paula)

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